sábado, 12 de abril de 2014

kisuco

não consegui acreditar que ganhei o prêmio brasília de literatura, porque os outros únicos prêmios que ganhei na vida foram: um casaco de couro num concurso de pintura do mosaico na tv; uma caixa de dominó numa rifa de teatro infantil e uma boneca suzi no concurso da kisuco. mas este último foi armado pelo meu cunhado, que trabalhava na kibon.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

avó

minha avó era mais ou menos legal. determinada, orgulhosa, vaidosa, só andou de ônibus até morrer e fez questão de continuar trabalhando até o final. aprendeu a falar hebraico sozinha e fazia discursos baseados na torá em todas as festas religiosas. mas fazia um bolo esquisito com cobertura azul ou verde ou rosa, não comia em nenhuma outra casa a não ser na própria, era teimosa e tinha uma coisa imperdoável: quando vinha cuidar de mim - meus pais e minhas irmãs saíam - ela dormia na poltrona da sala e o nariz fazia aquele chiadinho: fiii.

sábado, 5 de abril de 2014

mito

que ingenuidade achar que são ingênuos os que acreditam nos mitos. os que acham, por exemplo, que os sonhos são mensagens do além ou dos antepassados. acaso é menos mitológico o id, pelo fato de ter sido nomeado como um mecanismo interno? acaso a ideia de sujeito é menos fantástica que a de transcendência? a razão tem seu tanto de crença e, se quisermos ser razoáveis - sinônimo miais razoável de racional - não podemos abolir seu aspecto mitológico.

terça-feira, 1 de abril de 2014

tia

enfiava as duas notas de cinco na carteira, que a menina da banca me trocou por uma de dez, quando o moço, jovem, velho, não sei, me flagrou no gesto e disse ô tia, me dá uma dessas, quero tomar um café, moro na rua. não olhei para ele, nem dei a nota, continuei andando e ouvi, ao longe, ô, tia, não faz isso, tia, não faz iissoo, já gritando. à tarde, mandei minha cachorra, ainda bem nova, para o primeiro banho fora de casa. deixei-a entrar na gaiola de um carro desconhecido e ela foi. voltou limpa, com dois lacinhos amarelos nas orelhas e assustada. acordo hoje com o mendigo e os lacinhos na minha cabeça. merda de vida. 

domingo, 30 de março de 2014

caetano

agradeço por ter nascido na mesma época que caetano veloso e: jorge benjor, luis melodia, macalé, tim maia, chico buarque, nelson cavaquinho, maria bethânia. mas olha, só uma coisa: agradeço por ter nascido na mesma época que caetano veloso.

terça-feira, 25 de março de 2014

solidão

melhor do que fazer as coisas certo, é fazer as coisas leve, mesmo quando elas são pesadas. as coisas certo envaidecem, mas causam solidão. ninguém quer muito a companhia de quem faz tudo certo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

sarah

pense numa combinação absurda: uma pessoa que, por gostar de caravelas brasileiras, vai estudar literatura portuguesa em glasgow, a cidade europeia que tem a maior tradição na construção de navios de grande porte. ela se apaixona tanto pelas caravelas e pelo português, que vai morar nos açores, para aprender a língua. de lá, ela vem para o brasil. mas, uma vez aqui, não quer visitar são paulo, o rio de janeiro, nada. só abrolhos e itacaré. ela fica em itacaré, onde abre um sebo e faz traduções. ela gosta de barcos, literatura brasileira e de surf. e tem mais uma coisa: ela existe e se chama sarah. faz poesia em português e nós duas, no porto de salvador, vimos um navio vindo de hamburgo com grandes contêineres que pareciam livros numa biblioteca gigante. eles carregavam carros ou creme hidratante ou lentes de aumento ou panoramas da literatura brasileira. não sabemos. mas um desses contêineres iria cair no mar e, daqui a cem mil anos, um pesquisador vai encontrar esses panoramas da literatura brasileira e só ele saberá, inutilmente, que ela estava prestes a salvar o mundo, mas que o mundo não quis ser salvo.