sexta-feira, 24 de abril de 2015

tentativa

experimento dois: a mesma piada da avó, neto e balde, agora sem pronomes, verbos ou adjetivos.

a avó na praia, com o neto. neto em meio às ondas. vó: deus, por favor, o netinho de volta! menino outra vez, a salvo. avó, sem mais, para deus: senhor, e o baldinho?

terça-feira, 21 de abril de 2015

experimento

experimento 1: um dia sem pronomes.
para começar, uma piada sem pronomes pessoais: nem retos, nem oblíquos, nem possessivos.

a vó foi à praia levando o netinho, que foi engolido por uma onda. a velha implorou a deus: senhor, traga o netinho de volta, por favor. a onda veio e o menino ressurgiu, intacto. a avó, razoavelmente satisfeita, reclamou: tudo bem, deus, mas e o baldinho?

terça-feira, 14 de abril de 2015

diabo

por que deus em cima e o inferno em baixo? justo em baixo, onde ficam as raizes, as minhocas, os siris, as baleias, o magma, os movimentos tectônicos? é lá, em meio às minhocas nutridoras, que o diabo espeta seu tridente maléfico? por que não em cima, onde convulsionam os pernilongos?

sexta-feira, 10 de abril de 2015

não

não vou ir na não manifestação, porque o que se manifesta é aquilo que súbito se revela e não o que se arma metodicamente contra, aparelhando de medo o medo já semeado que, purificado em seu civismo, se auto-nomeia coragem. eu não vou ir no medo administrado.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

sexo

sexo basta amor não basta porque sexo é inteiro amor é metade. não bastar não basta e bastar basta e por isso sexo apraz e amor dói. mas o prazer que basta, de tanto bastar acaba não mais bastando porque ninguém quer tanto bastante. e a dor que não basta, de tanto não bastar se desgasta e então o sexo que basta reabastece a não bastância da dor.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

namoro

ele pediu que eu namorasse com ele e eu exultei. mas era pra fazer ciúmes na márcia, a mais bonita da série. aceitei mesmo assim. achei que o tempo o faria gostar de mim. não fez. três dias depois, ele desmanchou. a márcia não ficou enciumada e o falso namoro não serviu pra nada. foi no pátio, na saída da escola, no meio de uma multidão que se acotovelava. só eu ouvi o pedido. hoje me arrependo de ter aceitado, lamento não ter servido pra fazer ciúme. mas durante nosso breve namoro, assistindo a um jerrry lewis no cinema, aproveitei, me assanhei e sentei no colo dele. era a prova do namoro. foi um escândalo. bem feito.

sexta-feira, 27 de março de 2015

ovo

não lembro direito das palavras. alguma coisa como "para nascer é preciso quebrar o ovo" ou "quebrar a casca". eu tinha uns oito anos e estava descendo as escadinhas da portaria do prédio, com o demian aberto nas mãos. então li isso. fiquei parada na calçada da correa dos santos. então era preciso quebrar a casca? como eu faria isso? eu também precisaria quebrá-la? qual era a casca, qual o ovo? entrei num transe ontológico literário. não saí ainda.