segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

estacionamento

sou um santinho dentro de um altar e olho para as pessoas que rezam para mim. pedem milagres, curas, bênçãos, casamentos, a pessoa amada, chuva e vitória. prosperidade também. mas queria dizer a todos vocês, se possível, que, para essas causas, procurassem os santos aí do lado, porque eu acabei me especializando em vagas de estacionamento. se vocês quiserem lugar para estacionar, podem contar comigo, eu ajudo e garanto, no mínimo, duas vagas por semana, em lugares difíceis como vila madalena ou higienópolis. garanto ausência de guardadores ou, no pior dos casos, bastante trocado na carteira. mas cura, não. cura é com o aquele santo maior, o de madeira. eu sou só de plástico, vagabundo, e, depois desses anos todos, acabei me profissionalizando. inclusive, aceito gorjetas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

aguardo

prefiro aguardar a esperar. a espera é lenta, tem um objeto específico, que provavelmente demora a chegar, atrasa e nos deixa nervosos, raivosos e inseguros. já aguardar, não. aguarda-se sem saber o quê. aguarda-se porque a vida passa, porque houve o passado e haverá o inesperado, ou melhor, o inaguardado, o que não se guardou que ocorrerá e, quando menos se aguarda, surpresa, ele vem e o aguardante se desguarnece e recebe o acontecimento com acolhimento e vontade. já o esperador, coitado, quando vem o que se esperava, baixa os ombros e se conforma, triste, que a coisa chegou, mas atrasada.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

garota

lester young, conhecido como saxofonista, conta que deixou de tocar bateria porque ele demorava muito tempo para desmontar os instrumentos e, quando terminava, as garotas já tinham ido embora. kafka também, numa carta a felice bauer, diz que o motivo mais importante para ele escrever era mesmo conquistar as garotas. cada um tem sua garota. a minha, acho que são os garotos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

disco

ontem, na chuva que nos pegou desprevenidos e com pressa, sem guarda-chuva e no caminho para um encontro, vi uma mulher sentada na calçada, segurando no colo a filha pequena, estendida como se morta. negras as duas. a mãe chorava muito. parei. a pressa e a chuva chamavam. olhei, ela olhou. continuei.
o que me faz pensar nela agora, não dormir? culpa? dever? era uma cena teatral? arrependimento? por que não dei nem dez reais? mudaria alguma coisa?
a amiga disse que o rio de janeiro é um disco arranhado.
e daí?
o que importa o que senti, o que sinto?
por que não dei dez reais?
o que adianta essa briga interna?
teoria? prática? literatura?
o que tem ela a ver com minhas perguntas?
qual o tamanho do vazio, o colo perdido dos monstros que se escondem, para escutá-los?

sábado, 9 de janeiro de 2016

mala

eles nunca fazem uma mala só para os dois. sempre viajam com malas separadas. ela explicou: se já é tão difícil e a gente passa anos tentando mudar a si mesmo, quanto mais mudar o outro e ele é muito bagunçado. dá para conviver? então a gente convive. agora, mala junto já é demais.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

unúntrio

tudo conspira para o pessimismo. mas continuo otimista, quem sabe numa resistência inocente, mas algo me diz que também necessária. a verdade é que, no japão, descobriram o unúntrio, o elemento cento e treze da tabela periódica e isso é bom, porque, afinal, agora eles planejam seguir pesquisando o território inexplorado do elemento cento e dezenove e além. amém.

domingo, 27 de dezembro de 2015

árvore

o que faz com que uma árvore seja só aquela árvore e mais nenhuma outra? é algo intrínseco a ela, seu ser, sua essência? ou é extrínseco e está na circunstância, no espaço e em quem a olha, nesse caso dispensando a essência? ou é ainda mais distante, uma metafísica cósmica, algo que toca todos os seres e os faz serem quem são? ou serão todas essas coisas e meu olhar sobre a árvore não passaria de uma aceitação do que ela já é, o que, por sua vez, só adquire verdade pelo meu mesmo olhar, olhar que, sem o mistério da visão, nem mesmo existiria?