quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

presente

um presente é a atualização de um passado que retorna sob a forma de um objeto doado: um dom, uma dádiva. por isso, é claro, a coincidência entre a conotação temporal e da oferta ritualística: em aniversários, ocasiões de celebração, nascimentos, casamentos. para cada dom, desinteressado mas obrigatório, um compromisso, um selo: sou para você e você é para mim. estamos juntos em aliança. desejo que, neste natal, haja mais presentes presentes.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

conteúdo

o conteúdo é mais mole que a forma. se você partir do conteúdo, para escrever ficção, como ele é muito maleável, ele vai se encaixar em qualquer lugar, de qualquer jeito, porque tudo o que ele quer é dizer o que ele quer dizer. ele é teimoso e quer porque quer dizer aquilo. preto, branco, retangular, redondo, alto, baixo, rápido, devagar, tanto faz. já se você partir da forma, a coisa muda de figura. a forma é inflexível, ou quase. para poder usá-la bem, não é de qualquer jeito não. é preciso forjar o conteúdo à sua semelhança, fazê-lo render-se e configurar-se a ela. só assim ele começa a perder a teimosia do "quero dizer aquilo, por favor me deixa dizer aquilo vai" e começa a dizer o que a língua quer que ele diga. e aí, ah, e aí, surge cada coisa que nem sei.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

inverno

o que eu lembrei sobre ele, anteontem, quando ele faria oitenta e nove anos, foi dele cantando, no carro, uma canção desconhecida, mas que começava com as palavras "shnatse ha winter". não sei se era isso mesmo, mas ele me disse que queria dizer " o inverno está chegando", e ele entoava essa música toda vez que alguma coisa triste se anunciava. sei que essa canção me fez sentir muitas vezes culpada, porque eu tinha certeza de ser a causadora do inverno que se aproximava. agora, quando lembro dela, e dele, o inverno outra vez se avizinha mas, infelizmente, não sou mais eu a provocá-lo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

escândalo

até que ponto, quando nos escandalizamos - por razões morais, ideológicas, profissionais, éticas, políticas - vai o mérito supostamente moral, ideológico etc. do escândalo e até onde vai o desejo de humilhar, vencer, vingar-se, emboscar? até onde a proteção das supostas vítimas e até onde a defesa contra pulsões subjetivas? creio que é impossível saber este limite. por isso, acho melhor calar-se e deixar que cada uma das partes escolha seus caminhos de reflexão e de ação. escândalo vem do grego: "armadilha para o inimigo" e escandalizar-se, penso, nunca perde esta dimensão.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

enxaguador

sempre batemos longos papos enquanto ele está fazendo bochechos com o enxaguador bucal, que é um nome feio para aquilo-que-a-gente-usa-depois-de-escovar-os-dentes. ele começa a contar sobre o dia, fazendo sons e gestos e eu tento adivinhar. erro muito, ele reclama, fazendo "hum, t, t" e eu modifico as previsões, até eventualmente acertar ou, melhor, fazer um erro engraçado, o que quase o faz cuspir o enxaguador. ele gosta de ficar uns três minutos com o negócio na boca, o que valoriza muito a conversa. eu não, fico só uns sete segundos bochechando e, por isso, não conversamos tanto quanto poderíamos.

domingo, 23 de novembro de 2014

chão

indígena significa "de dentro da origem", "de dentro da produção", "de dentro do nascimento". somos todos indígenas, portanto. se o governo continuar violando as terras dos índios, roubará de cada um de nós nossa origem e ficaremos, mais do que já somos, perdidos. cada índio em sua terra é, para cada um de nós, um lugar. eles somos nós e tirar o que é deles e roubar-nos o chão.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

cuidado

o cedeefe que não passa cola. o vizinho que conta para o síndico a hora que você chegou. a pessoa que rouba a tua vaga, quando você já a tinha localizado e estava esperando por ela. o cara que não dá esmolas porque os mendigos bebem. todo aquele que salvaguarda os bons costumes. todo aquele que usa impunemente a palavra "salvaguardar". o chefe que, dando muitas broncas, acha que aprimora seus funcionários. aquele que pensa que "cada macaco no seu galho" e "cada um com seus problemas". cuidado! fique atento! ele pode estar te observando, bem próximo de você!